❝ Tomara que a gente tenha maturidade suficiente para olhar pra dentro e reconhecer nossas falhas. Tomara que a gente consiga descartar o que não serve sem apego ou drama. Tomara que a gente possa olhar para a frente sem aquela mágoa azeda do que ficou para trás. Tomara. ❞
— Clarissa Corrêa.
❝ preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te. ❞
— Mário Quintana (via oxigenio-dapalavra)
❝ Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. ❞
— José Saramago (via desaguas)
❝ Você chegou, fez o seu teatro, apresentou a sua peça, e no final, decepcionou o protagonista. O público chorou, e eu também. Por que não existe dor no mundo pior que se sentir especial para alguém em um dia, e noutro perceber que tudo foi uma grande ilusão. E agora, depois de tudo, eu te digo: Eu me senti assim. Doeu, doeu muito. Principalmente quando eu achava que estava te esquecendo, e algo me fazia te lembrar. Ou quando eu imaginava um pedacinho de você em cada pessoa que passava por mim. Mas a culpa não foi tua. O erro que foi meu, desde do princípio conhecendo o roteiro, eu sempre insistia em colocar a mesma peça em cartaz. ❞
— Pedro Pinheiro (via capitule)
floresinexatas:
Jorge Vercillo.
❝ João nasceu sem chorar, levou palmada do doutor até a mãe ficar com dó. Parecia que João já veio ao mundo querendo chorar de dor, mas não queria incomodar. João comia todos os vegetais e legumes do prato. João cresceu forte e saudável, com o estômago verde e os olhos azedos pelo espinafre que engoliu ao longo da vida. João quando aprendeu a rimar, odiava o próprio nome. Odiava os colegas na hora da chamada. João, pé de feijão. João passou a odiar os contos de fada. João via girafas no céu, até que alguém disse que nuvem era água vaporizada. E João nunca mais viu uma girava no céu, por medo de contrariar. João odiava matemática, mas estudou e levou um dez por medo de reprovar. João fechava a janela do quarto quando os passarinhos acordavam, porque ele gostava de dormir sempre uma hora a mais, por medo de não conseguir assistir a aula no dia seguinte. João colocava o fone de ouvido baixo, por medo de prejudicar a audição. João reclamava quando o chiclete perdia o açúcar, e nunca passou mais de 5 minutos mascando porque detestava dentista, por medo de apodrecer os dentes. João enricou, por medo de não poder mais reclamar de nada. O João, que odiava matemática, virou engenheiro. João detestava azul, mas comprava sempre da mesma cor, por medo de mudar. João odiava a mulher que dava troco em balas, mas aceitava, por medo de ter que esperar um pouco mais na fila. João jogava as balas fora, não dava pra criança pobre nenhuma, porque não queria alimentar a vadiagem. João odiava o calor, e mandou comprar um ar-condicionado que sugava o seu nariz, porque não queria suar. João nunca montou caras no suporte do ventilador, nem ouviu como sua voz ficaria engraçada se ele tivesse gritado nas hélices. João reclamava do barulho de tábuas rangendo, e nunca conseguiu escutar o som dos netos quando eles começaram a andar. E agora o João era Seu João, um velho que nunca precisou de óculos porque nunca quis saber de ler no escuro, um homem que escutava qualquer coisa, mas preferia ser surdo a ter que ouvir todo aquele silêncio proposital, um homem que comeu todos os vegetais do prato, que não tinha uma única cárie, que era engenheiro e odiava matemática. João morreu dormindo. Por medo de incomodar. ❞
— Cinzentos (via p-r-o-c-e-n-i-o)
❝ Quem não se perguntou em algum momento ou outro: eu sou um monstro ou isto é o que significa ser uma pessoa? ❞
— Clarice Lispector - A hora da estrela. (via floresinexatas)
❝ Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinham a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará um dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. ❞
— As Meninas (via trecho-de-livros)
❝ Eles estão com inveja”, ela dizia. Mas Colin sabia que não era isso. Não estavam com inveja. Ele simplesmente não era “gostável”. Às vezes é simples assim. ❞
— O Teorema de Katherine (via trecho-de-livros)
❝ Eu guardei o meu melhor para alguém que realmente valha a pena. Tô guardando os meus mais sinceros sorrisos para quem saiba valorizá-los. Tô guardando aquele brilho no olhar pra quem sabe admirar as estrelas. Passei a cultivar minhas borboletas no jardim. Meus afagos transformei em pétalas de rosas e joguei-as ao vento. Do meu amor fiz poema de esquina. E de você? Bem, de você fiz passado. ❞
— Acúmulos (via desaguas)
❝ O ser humano não espera o pior. Nunca espera a dor, nunca espera a morte. O ser humano não espera as más notícias, não espera o sofrimento, não espera pelas lágrimas. Nós nunca esperamos que o pior venha a acontecer. O ser humano acha que o tempo é infinito, que nada é perecível. Temos o costume de acreditar em chances incontáveis, seres eternos, dias inacabáveis. Esperamos uma segunda oportunidade, quando poderíamos fazer valer a primeira. Aguardamos pelo próximo dia, pelos cinco minutinhos seguintes. Nós nunca acreditamos no poder que tem um segundo, um dia, uma semana. Tudo, inclusive nada, pode acontecer em um piscar de olhos. Um teto que desaba, um carro em alta velocidade, um choque, um tiro. E tudo se vai tão rápido como veio. E todos se vão, se consomem em choro, como vieram. Foi-se o tempo, foi-se a hora, fica o susto, o medo, a dor. Porque o ser humano espera por flores e não espinhos. Mesmo sabendo que nada dura para sempre, o ser humano quer acreditar que dura. Quer adiar a vida, o fim de semana, a taça de vinho. Não ficamos nunca satisfeitos ao ver o fim. O fim é trágico, é acompanhado do sabor azedo daquele momento perdido, da oportunidade deixada, das coisas não feitas e mal feitas, dos carinhos não dados, do cuidado não tomado. Nós não nos conformamos com a partida. Esperamos pela chegada. E quando não há mais volta? O ser humano enlouquece. Enlouquece porque não sabe aceitar o fim, ao mesmo tempo em que deseja cessar a tristeza. A verdade é que tudo passa. Tanto o tempo, quanto as dores. Tudo passa, o ser humano é quem tem mania de acreditar que tudo fica. ❞
— rio-doce (via p-r-o-c-e-n-i-o)